14 de junho de 2010

Derrame

Você já sentiu vontade de chorar ao beijar uma pessoa por amá-la demais e por temer perdê-la? É porque você sonhou a vida inteira com ela, essa pessoa.
Quando você se olhava no espelho de casa, se achava bonito e se perguntava triste se alguém o perceberia dessa forma, você sonhava com essa pessoa. Essa que você vai querer beijar para sempre e que vai reconhecer sua beleza outrora exclusiva aos espelhos de casa e aos olhares dos que sabem ver.
Quando você olhava para o celular, fingindo acaso, e pensava que um alguém qualquer, mas já não tão qualquer, poderia te ligar naquele momento, fazendo uso de alguma desculpa visivelmente forjada, só para ouvir sua voz e saber como você está, você sonhava com essa pessoa. Essa que você abraça mais forte no beijo para mantê-la mais tempo real ao tato.
Quando você, mais por destino que por sorte, lia um poema ou texto de amor e lamentava por não ter a quem enviá-lo, fazendo das palavras do autor as suas, plagiando sentimento, você sonhava com essa pessoa. Essa que você beija de olhos abertos para que nada escape aos sentidos e para confirmar o que a mente poderia estar inventando.
Quando você acreditava ter achado e presumia estar próximo da certeza de ter alguém (que seria o alguém) e todo o plano sucumbia ao perceber que este, não era aquele, você se perguntava aonde estaria essa pessoa. Essa que você sente vontade de chorar por saber que essa é a sua resposta.
Essa é o reconhecimento, a ligação, o segundo, a presença. Você chora por ter sido atendido em preces, devaneios e promessas. Chora por cansaço da espera e felicidade do fim de busca. Você chora de amor. E por tanto tê-lo guardado, este muito acumulado, ao beijo se derrama; as lágrimas.

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