25 de janeiro de 2011

Sobre escolhas

Você me obrigou a pensar sobre escolhas... Apelarei para alguns bons:
"Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito." William Shakespeare

Achei justo. Bem justo, na verdade. Que não podemos escolher como nos sentimos, isso todo mundo já sabe desde muito cedo (infelizmente, desde de muito cedo). Mas, então, por um sentido de justiça que não existe na prática, possuímos o direito de escolha do que faremos a respeito do que sentimos.
Você disse que fez a escolha certa. A escolha certa sobre o que?
Você não pode escolher o que sente, certo? E o que você sentiu?
A escolha que você fez a respeito do que sentia foi certa. Certa como?

Não, não estou tentando provar nada. Longe de mim provar qualquer coisa. Não consigo nem provar a mim mesmo certas verdades.
Todos nós sabemos que a sua escolha foi e sempre será certa, correta. Por uma possibilidade da língua dizemos que você acertou.
Só questiono o que é 'acertar' exatamente. O que é uma 'escolha'. Sobre o que temos o poder de escolha e sobre o que não temos tal capacidade.

E como Shakespeare me esclareceu, descobri que Eu não fui sua escolha certa, mas que talvez, quem saiba, Eu tenha sido o que você sentiu.
Honestamente, prefiro ser sentido que escolhido.
Pois acho que para sempre serei mais Sentir que Escolher. Pois não posso garantir que minhas escolhas sejam certas, mas posso garantir que meu sentir é perfeitamente impecável. Pois se pede conselhos ao se fazer uma escolha, mas não se pede conselhos ao sentir. Pois se sente quando novo e velho. Pois sentir não envelhece. Pois sentir está no coração e escolher está na mente. Pois confiarei mais no coração do que na mente. Pois a mente já me enganou; o coração não. Pois sentindo eu vivi e escolhendo eu evitei a vida. Pois sentindo eu me machuco, sangro e acho graça; e escolhendo eu me protejo. Pois se amei, foi porque senti amor e não por escolher amar.

Que fiquemos então assim, está bem? Cada um com seus prós e contras. Todos os limites bem desenhados. Até o lirismo dividido.
Porém, tenha certeza: o sentimento é meu. E que as escolhas sejam dos outros.

20 de janeiro de 2011

Da vida

Acho divino acreditar que as palavras penetrem nosso cotidiano. E creio que são poucos os sortudos que consigam enxergar o lirismo entranhado até nas coisas brutas do nosso dia-a-dia. Tenho a certeza cega de que você é um desses felizardos com a capacidade de ver o belo no feio.
Tenho até uma imagem: você preso num engarrafamento.
Para todos os outros aquilo é caótico, quente e cinza metálico. A cacofonia fazendo as mentes tenderem ao irracional da raiva gratuita.
Mas você não.
Você entende que o engarrafamento é um fluxo lento de gente, de vida. Que existe sorte em poder presenciar de dentro esse acontecimento que marca o fim de todo um dia de trabalho, luta e (mais uma vez) de vida. Você vê que atrás do metal sem graça da lataria dos carros, existem as belas cores das roupas dos condutores e passageiros. Onde tudo é cinza, você enxerga arco-íris. E os muitos sons que ferem os ouvidos alheios são abafados pelo assobio de uma melodia ou por uma bela música que você coloca no rádio (e secretamente torço que seja Buarque). Pronto, você aceita e está em paz. Você, pleno, de novo.
E então, te vejo sorrindo em meio a tudo isso. Sorriso leve, de canto de boca e com os olhos.
Te vejo belo no feio.
Entendeu minha visão? Será apenas miragem? Não, tenho fé em você.
Por isso, vou seguindo rindo bobo e lendo Quintana... Mas o que eu queria mesmo era que vendessem por aí, óculos como meus olhos. Só para que todos vissem, ao menos uma vez, o mundo como eu vejo. Assim mesmo: cor de rosa. E é bom que depois joguem fora os óculos, porque essa cor cansa a vista e acabamos por tomar inúmeros tombos. E Deus sabe quantos tombos... O que faço? Eu levanto e continuo andando... Dessa vez, com outro livro nas mãos.

17 de janeiro de 2011

Meu baú

E existe essa opção de crer na vida. Vida como uma estrada em que se anda a pé, descalço, com terreno variando de composição e aparência. Uma estrada que sempre trará novas imagens em suas beiras. E a opção de acreditar que essas imagens serão boas, positivas, agradáveis, satisfatórias e/ou prazerosas existe. Não existia desde sempre, porque a dor e a descrença são componentes importantes na mistura que dará a cor mais bonita do nascer do sol. "É preciso dor para ser feliz sem ser idiota". Já fui idiota. Já fui dor. E só Deus sabe como fui dor. Do poço, saí com escolhas. Opções viáveis, de minha decisão. O que é bom virá?
E me peguei sorrindo pensando em você. Você? Desculpe, o senhor. Eu mal o conheço. Mas foi no senhor que pensei sorrindo. Foi esse o sinal? Imagino como deve ser bom trabalhar com jóias e poder diferenciá-las. Saber, a olhos nus, quando o belo é de fato valioso e não apenas comum. Tendo essa habilidade, saberia eu dizer quando ouvir um canto de um pássaro é pedra rara? Achar a luz do sol deliciosamente gelada é safira? Ou então menor... Achar bonito o balanças das cortinas pela brisa é válido como presente?
Talvez, assim como um perigo iminente prepara nosso corpo para a luta ou a fuga, o sofrer nos prepara para enxergar. E como um clichê que nascemos sabendo, nos damos conta que o tesouro esteve aqui. Que o tesouro, somos nós. Que cabe a nós criarmos as imagens na beira da estrada. Que eu decido o que me faz feliz. E que se eu for inteligente, vou escolher as coisas mais simples pra serem minhas jóias. Que se eu for grande, vou preferir as pequenas. Que quero ser como uma criança que acha graça numa pedra pontiaguda, não como o mineiro do Sri Lanka a procura do brilho na rocha. Que vou passar a ter certeza que alguém me ama apenas pelo olhar. Que vou andar na rua sozinho, me sentindo acompanhado de alguém maior.
E as poesias estarão escritas em qualquer árvore ou planta. Vou achar lirismo até no trovão que assusta. O que cair no meu colo já será presente. O que surgir a minha frente já terá um abraço.
O meu maior deleite será ver o sol desenhando seus raios no chão através das persianas; Só porque todo dia é assim.
- E quando estiver nublado?
- Quando nublar, a beleza das nuvens já bastará.




"- Não há passaros este ano nos ninhos do ano passado.
- É uma linda frase, monsenhor, mas o que significa exatamente?
- Eu próprio jamais compreendi muito bem, mas acho que a beleza é suficiente."