17 de janeiro de 2011

Meu baú

E existe essa opção de crer na vida. Vida como uma estrada em que se anda a pé, descalço, com terreno variando de composição e aparência. Uma estrada que sempre trará novas imagens em suas beiras. E a opção de acreditar que essas imagens serão boas, positivas, agradáveis, satisfatórias e/ou prazerosas existe. Não existia desde sempre, porque a dor e a descrença são componentes importantes na mistura que dará a cor mais bonita do nascer do sol. "É preciso dor para ser feliz sem ser idiota". Já fui idiota. Já fui dor. E só Deus sabe como fui dor. Do poço, saí com escolhas. Opções viáveis, de minha decisão. O que é bom virá?
E me peguei sorrindo pensando em você. Você? Desculpe, o senhor. Eu mal o conheço. Mas foi no senhor que pensei sorrindo. Foi esse o sinal? Imagino como deve ser bom trabalhar com jóias e poder diferenciá-las. Saber, a olhos nus, quando o belo é de fato valioso e não apenas comum. Tendo essa habilidade, saberia eu dizer quando ouvir um canto de um pássaro é pedra rara? Achar a luz do sol deliciosamente gelada é safira? Ou então menor... Achar bonito o balanças das cortinas pela brisa é válido como presente?
Talvez, assim como um perigo iminente prepara nosso corpo para a luta ou a fuga, o sofrer nos prepara para enxergar. E como um clichê que nascemos sabendo, nos damos conta que o tesouro esteve aqui. Que o tesouro, somos nós. Que cabe a nós criarmos as imagens na beira da estrada. Que eu decido o que me faz feliz. E que se eu for inteligente, vou escolher as coisas mais simples pra serem minhas jóias. Que se eu for grande, vou preferir as pequenas. Que quero ser como uma criança que acha graça numa pedra pontiaguda, não como o mineiro do Sri Lanka a procura do brilho na rocha. Que vou passar a ter certeza que alguém me ama apenas pelo olhar. Que vou andar na rua sozinho, me sentindo acompanhado de alguém maior.
E as poesias estarão escritas em qualquer árvore ou planta. Vou achar lirismo até no trovão que assusta. O que cair no meu colo já será presente. O que surgir a minha frente já terá um abraço.
O meu maior deleite será ver o sol desenhando seus raios no chão através das persianas; Só porque todo dia é assim.
- E quando estiver nublado?
- Quando nublar, a beleza das nuvens já bastará.




"- Não há passaros este ano nos ninhos do ano passado.
- É uma linda frase, monsenhor, mas o que significa exatamente?
- Eu próprio jamais compreendi muito bem, mas acho que a beleza é suficiente."

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