Acho divino acreditar que as palavras penetrem nosso cotidiano. E creio que são poucos os sortudos que consigam enxergar o lirismo entranhado até nas coisas brutas do nosso dia-a-dia. Tenho a certeza cega de que você é um desses felizardos com a capacidade de ver o belo no feio.
Tenho até uma imagem: você preso num engarrafamento.
Para todos os outros aquilo é caótico, quente e cinza metálico. A cacofonia fazendo as mentes tenderem ao irracional da raiva gratuita.
Mas você não.
Você entende que o engarrafamento é um fluxo lento de gente, de vida. Que existe sorte em poder presenciar de dentro esse acontecimento que marca o fim de todo um dia de trabalho, luta e (mais uma vez) de vida. Você vê que atrás do metal sem graça da lataria dos carros, existem as belas cores das roupas dos condutores e passageiros. Onde tudo é cinza, você enxerga arco-íris. E os muitos sons que ferem os ouvidos alheios são abafados pelo assobio de uma melodia ou por uma bela música que você coloca no rádio (e secretamente torço que seja Buarque). Pronto, você aceita e está em paz. Você, pleno, de novo.
E então, te vejo sorrindo em meio a tudo isso. Sorriso leve, de canto de boca e com os olhos.
Te vejo belo no feio.
Entendeu minha visão? Será apenas miragem? Não, tenho fé em você.
Por isso, vou seguindo rindo bobo e lendo Quintana... Mas o que eu queria mesmo era que vendessem por aí, óculos como meus olhos. Só para que todos vissem, ao menos uma vez, o mundo como eu vejo. Assim mesmo: cor de rosa. E é bom que depois joguem fora os óculos, porque essa cor cansa a vista e acabamos por tomar inúmeros tombos. E Deus sabe quantos tombos... O que faço? Eu levanto e continuo andando... Dessa vez, com outro livro nas mãos.
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